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abr 14

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11.22.63 | Crítica

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Era uma manhã ensolarada e quente do dia 22 de novembro de 1963, quando a comitiva em carro aberto que atravessava o centro de Dallas, nos EUA, trazia um presidente Kennedy sorridente e acessível. Ao seu lado, a adorável Jacqueline vestia seu icônico terninho cor-de-rosa da grife de Coco Chanel. Exatamente ao meio-dia e meia, a comitiva atravessou a Rua Elm e tiros foram ouvidos pela multidão. A histórica filmagem que mostra a cabeça do presidente sendo explodida por uma das balas pode ser encontrada e vista por qualquer interessado. A partir desse momento, começou a jornada para descobrir se Kennedy foi morto por um único assassino ou se foi vítima de uma intrincada conspiração.

Stephen King é, provavelmente, um dos escritores mais adaptados da história do cinema e da TV (deve ser também um dos que mais produz). É dele o livro que serve como base para a minissérie 11.22.63, que chegou ao fim depois de oito episódios e não deve ter outra temporada como andou-se especulando durante a exibição. A adaptação feita por Bridget Carpenter, acompanhada de perto pelo próprio King, teria a difícil missão de levar os mundos hiperdetalhados do autor para a televisão de modo coeso e coerente, acertando onde Under the Dome falhou consecutivamente. Até hoje, mesmo no cinema, são poucas as adaptações de King que escaparam da implacabilidade crítica.

O argumento da série é bem simples: o professor de literatura Jake Epping (James Franco) acaba recebendo uma missão inesperada em sua vida pouco colorida. O moribundo dono de um restaurante frequentado por Jake oferece ao amigo a chance de viajar no tempo através do que ele chama de Toca do Coelho. Al, o dono do restaurante (vivido por Chris Cooper), está com os dias contados e reparte com Jake o seu segredo justamente porque precisa de alguém para dar continuidade a um plano que ele mesmo não conseguira executar: impedir que o presidente John Kennedy fosse morto naquela manhã de 22 de novembro de 1963.

Livro X Minissérie

11.22.63 estreou sobre a segura chancela do produtor executivo J.J.Abrams e do próprio Stephen King. Não havia muitas garantias de sucesso, apesar disso, justamente porque King também estava acompanhando de perto a evolução de Under the Dome e, mesmo assim, muitas decisões questionáveis foram tomadas. King, contudo, deixa claro em todas as suas entrevistas que não interfere nas decisões criativas dos roteiristas e que essa é a única maneira de sair saudável desse tipo de experiência. Além de ser um escritor compulsivo, King não é um negociador difícil na hora de ceder os direitos de suas obras (O Apanhador de Sonhos foi cedido praticamente de graça para filmagem, logo após o lançamento).

Com um material original de mais de 700 páginas, o público que conhece o livro já se mostrou apreensivo com as liberdades que seriam tomadas. Porém, a favor da própria produção, estava a possibilidade de contar aquela história em oito episódios e de poderem, com isso, reconhecer onde poderiam ser feitos os cortes menos drásticos, já que a fórmula da narrativa da obra em questão é uma das mais concisas que o autor já produziu. 11.22.63 é um livro sobre uma missão, mas que se dedica, como com quase tudo no trabalho de King, a acompanhar um homem comum diante de uma experiência de mudança ou confinamento circunstanciais.

Jake Epping “pula” para 1960 na minissérie. São dois anos a menos que no livro, quando a passagem leva sempre ao ano de 1958. Essa é a primeira edição necessária para que a versão televisiva aconteça. Se o livro dedica muito tempo à rotina de Jake no passado, a minissérie diminui esse tempo para que a narrativa central seja sempre aquela que gira em torno das investigações pessoais do protagonista acerca do provável assassino, Lee Harvey Oswald (Daniel Webber). Essas arestas precisam ser aparadas, porque ao contrário do leitor, sempre sedento por mais detalhes e atmosferas que lhe agucem, o espectador precisa ser conduzido ao “do que se trata” com muita rapidez. A adaptação de Carpenter, então, se apressa e determina: essa é uma história sobre impedir o assassinato do presidente e vamos nos ater a isso.

Efeito Borboleta

Produções que lidam com viagens do tempo já se atrapalharam muitas vezes na TV, assim como com superpoderes e ressuscitações. Viajar no tempo não pode mudar qualquer coisa, nenhum herói pode ser invencível e nenhum recurso pode ser 100% eficaz em trazer mortos de volta a vida. Nenhuma dramaturgia pode ser saudável diante dessas três hipóteses se elas não forem muito controladas. King, então, faz um bom trabalho em controlar a sua e a minissérie respeita todas as regras de forma a proteger a coerência dos eventos. A passagem sempre leva a 1960 e a cada vez que uma viagem é feita, tudo que foi feito na anterior é anulado.

Embora dedicado, James Franco não é a melhor coisa de 11.22.63. Não é possível saber se essa é uma sequela das edições necessárias no material original ou se ele apenas deixou faltar a maturidade e carismas tão presentes no Jake Epping conhecido pelos leitores. Essa relação da minissérie com o livro é extremamente intrigante, já que assim como uma simples mudança no tempo pode gerar um caos inesperado, os ajustes na dinâmica entre TV e literatura também podem  gerar problemas inevitáveis.

A frouxidão das atuações é o maior deles. Franco talvez não seja o único já que a Sadie Dunhill de Sarah Gandon é bastante problemática. Porém, aqui estamos de novo lidando com o “efeito borboleta” dessa mudança entre roteiro e literatura. Se Sadie era muito presente na rotina de Jake no passado (ele precisou passar três anos esperando até poder evitar o assassinato) e esse passado foi bastante editado pela minissérie, a personagem foi entregue a uma atriz que a construiu não de acordo com o livro e sim de acordo com a minissérie, o que foi uma decisão correta e coesa. Entretanto, a inserção de Bill Turcote (George MacKay), que não existia no livro, para ser o parceiro de Jake na missão, provocou uma ligação bem mais orgânica e emocional entre os dois personagens, superficializando o romance entre Sadie e Jake e se tornando uma das melhores coisas da série.

O Passado Não Quer Ser Mudado

O mundo de 1960 foi reproduzido com imensa competência pela equipe de caracterização da minissérie. Esse era um fator importante, porque num livro sobre a morte de Kennedy onde tudo começa anos antes da morte acontecer, a ambientação correta é fundamental. King consegue prender seus leitores com a construção de uma dramaturgia sobre um passado que luta para não ser mudado. E de muitas formas, da mais sobrenatural até a mais sutil. Vivendo naquele passado por anos, Jake constroi relações, constroi uma rotina e uma vida que nós sabemos que ele precisará abandonar quando a missão for cumprida.

Se nas longas páginas do livro isso funciona perfeitamente, na minissérie há uma pressa natural para dizer o que precisa ser dito. Não há no roteiro uma atenção determinante à forma como Jake passa seu tempo naquele novo-velho mundo. Muitas vezes, o texto aplica uma frase ou outra que nos dão a ideia de que Jakeviveu ali como um professor de literatura bem sucedido e querido pelos alunos, mas não há um acompanhamento efetivo nesse sentido, justamente porque a minissérie quer focar na preparação para a missão em si.

Então, se 11.22.63 peca na construção do cidadão Jake do passado, acerta na condução da investigação do crime. Jake acredita que Lee agiu sozinho para matar o presidente, mas não pode ter certeza e por isso monta um esquema admirável de espionagem com o intuito de descobrir. Uma vez estabelecido que Leeagiu por si mesmo, Jake só precisaria matar o sujeito e pronto. É aí que entra com mais força a teoria de que o passado não quer ser mudado, algo que Kingsustenta brilhantemente no livro e que é impresso com muita dignidade na série. Para cada passo que Jake dá, forças naturais o empurram de volta, como se forçando-o a recuar para que as coisas aconteçam como tem que acontecer.

Há uma extrema elegância nos episódios da minissérie e isso já é um ponto muito favorável. Vê-la apenas como “espectador não-conhecedor do livro”, contudo, não impede que percebam-se problemas na resolução dos fatos. Em essência, quase todas as viradas dos momentos derradeiros estão presentes na finale. Porém, ao “voltar ao passado” e apagar alguns trechos do livro, os roteiristas também apagaram detalhes que poderiam dar ao espectador um senso de compreensão mais amplo a respeito dos efeitos provocados por uma mudança muito grande na história da humanidade. Apesar de ser essa uma história trágica sobre um homem comum que tem uma vida inteira para apagar da própria linha do tempo (com amores, amizades e emoções junto dela), algumas explicações mais práticas teriam sido bem-vindas. Cabe aos que viram a minissérie fazerem mais ou menos o mesmo que Jake: abrirem o livro, resetarem a história e seguirem com ela como ela deve ser, com todos os detalhes que preenchem corretamente as lacunas e enriquecem a nossa imaginação.

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