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abr 10

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American Crime Story – 1ª Temporada | Crítica

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Em 1992, uma série de manifestações e episódios de violência tomaram conta de Los Angeles após o departamento de polícia da cidade (LAPD) ter sido absolvido de crimes de agressão contra o taxista Rodney King, espancado brutalmente após uma abordagem. Rodney estaria em alta velocidade, mas os policiais não pareciam precisar de um motivo. A agressão foi filmada e após o veredito favorável aos réus, a comunidade afrodescendente insurgiu contra toda a polícia local e os conflitos se tornaram marcantes para a história da cidade, já em constante e crescente tensão racial.

Dois anos depois, na noite do dia 12 de junho de 1994, essa mesma polícia recebeu um chamado inusitado no abastado e elegante bairro de Brentwood. Um homem e uma mulher tinham sido assassinados na frente de uma residência. O homem era um anônimo, garçom de um restaurante. A mulher, contudo, se chamava Nicole Brown e estava recém divorciada do astro do futebol – agora estrela de cinema – OJ Simpson. As vítimas tinham sido esfaqueadas com brutalidade, enquanto os filhos dela ainda dormiam no andar superior da casa. O principal suspeito se tornou o próprio OJ e esse foi o começo de uma jornada espantosa para a história de Los Angeles e dos próprios Estados Unidos.

Conhecido por sua maneira limítrofe e ousada de contar histórias, Ryan Muprhy lançou American Crime Story, sua nova antologia pensando numa outra perspectiva: ficcionar fatos reais. A escolha do caso de OJ Simpson deu-se numa tentativa óbvia de manter seu trabalho dentro de uma unidade. Los Angeles é cenário constante de vários de suas obras justamente porque ela transborda cultura pop. O caso também atravessou as fronteiras do próprio crime e se tornou um exemplo de confrontos raciais e estudos sociológicos. Os Estados Unidos literalmente pararam para acompanhar “O Julgamento do Século”, que se tornou uma inacreditável fonte de surpresas, reviravoltas e escândalos capazes de superar até o mais fantástico dos roteiros.

A Corrida da sua Vida

Na manhã seguinte ao crime, já tendo descoberto sangue no carro e na casa de OJ Simpson, a polícia pediu sua prisão. Mais tarde, após inúmeras tentativas de despistar as autoridades, OJ entrou em seu carro e fugiu. A polícia imediatamente saiu em sua caça. Seu nome já aparecia nos telejornais como suspeito do crime e houve um imenso interesse do público, já profundamente afetado pelos eventos de dois anos antes. De novo, a polícia perseguia um homem negro e dessa vez, com transmissão ao vivo na TV. OJ, que em sua carreira como jogador ocupava a posição de running back no campo, agora fazia a corrida mais importante de sua vida, aquela que lançou seu nome na história.

As provas contra ele eram inúmeras. Possivelmente, sua decisão de fugir estava muito ligada a ideia de que ninguém com aquele mar de evidências contra si mesmo poderia ser inocentado. Eram coisas irrefutáveis, como cabelos na cena do crime, luvas ensanguentadas (uma na cena e outra em sua casa), pegadas… Era um verdadeiro sortimento de provas. Porém, naquela fuga (facilmente encontrada no YouTube) havia também um sinal de que nem tudo estava perdido. Pelo acostamento da rodovia, pessoas seguravam cartazes de apoio a ele, havia um sentimento de que dessa vez não, dessa vez a polícia não ganharia, ela não prenderia e humilharia mais um negro em rede nacional. Muito menos aquele, um símbolo de vitória, de superação, um heroi.

De forma impressionante, o roteiro de American Crime Story nos envolve num jogo de impressões irresistível. Esse caso ficou conhecido não só por conta da evidente culpa de OJ, suprimida por uma defesa que claramente se aproveitou do momento de tensões latentes em Los Angeles, mas também pelo agressivo e determinante papel da mídia durante todo o processo. A série estabeleceu isso muito cedo e conseguiu manter seu ponto de vista até o minuto final. Esqueça a possível impressão de que por tratar-se de um julgamento, horas e horas serão perdidas em argumentos e jargões enfadonhos. Nada, absolutamente nada nesse caso é entediante. Os roteiros são cortantes e estabelecem uma ligação entre o tribunal e a sociedade como um todo, que nunca vi nenhum outro roteiro criminalista conseguir fazer. Além disso, a reconstrução de época é soberba e há uma cuidado admirável com todos os detalhes acerca dos personagens e situações (a reconstrução da cena do crime é tão idêntica que dá arrepios).

As Evidências versus A Narrativa

Baseado no livro The Run of His Life, de Jeffrey Tobin, American Crime Story foi toda roteirizada pelos mesmos nomes: Larry Karaszewski e Scott Alexander. Ryan Murphy dirigiu alguns episódios e tratou de contornar aquela dramaturgia que não sairia de sua mente, com seu compromisso de identidade estética. A história real que ambientava a série era tomada de ares inacreditáveis e por isso, a direção foi pensada de forma dramática, com câmeras tremidas, cortes rápidos e closes incisivos. Para conquistar mais ainda a audiência e mantê-la interessada, um elenco estelar foi escolhido a dedo para reproduzir não só a aparência dessas figuras reais (muitas ainda vivas), como também suas angústias, tornadas tão públicas no decorrer dos eventos.

A promotoria era formada por Marcia Clark (Sarah Paulson, em outra atuação irrepreensível) e Christopher Darden (Sterling K. Brown). Ela, uma advogada voraz, determinada, e que foi cruelmente atacada pela mídia durante todo o julgamento. Ele, um apaixonado e emocional parceiro de banca. Os dois reuniram uma quantidade impressionante de evidências que tornariam a inocência de OJ completamente impossível. Entretanto, o time da defesa encontrou uma brecha e conseguiu distorcer completamente o processo ao se aproveitar das inflamações sociais que gritavam do lado de fora do tribunal.

Courtney B. Vance interpretou o mitológico advogado Johnny Cochran, contratado por Robert Shapiro (John Travolta) para ser um rosto negro que protegeria seu “irmão”. Os dois se uniram a mais alguns nomes estrategicamente escolhidos e construíram uma defesa toda baseada em racismo. Se eles não podiam apontar outro suspeito (porque era impossível), eles então dariam ao júri uma narrativa. A escolha do advogado que formaria essa narrativa era imprescindível, assim como a escolha do ator que o interpretaria. American Crime Story foi quase que completamente bem sucedida na escalação de seus atores, justamente porque eles traduziam perfeitamente a verdade do absurdo.

O melhor amigo de OJ era Robert Kardashian, o pai de alguns dos filhos de Kris Jenner, matriarca da família que hoje é dona de um império que inclui moda e realities show. Ele foi vivido por um dedicado David Schiwmmer, que tentou novamente libertar-se de Ross com um personagem que vive o conflito constante de amar o amigo, mas não poder fechar os olhos para todas as evidências. O maior erro de escalação, contudo, acabou sendo do próprio protagonista. Cuba Gooding Jr., além de não se parecer com OJ, não tinha o carisma e a sensibilidade necessárias para reproduzir a dissimulação social do astro. OJ era irresistível na frente das câmeras e temperamental atrás delas. Sorria e adulava, mas já tinha espancado Nicole Brown inúmeras vezes. Essas camadas acabaram não sendo defendidas por Cuba, que se ateve à sua exasperação costumeira.

O Veredito

Os momentos emblemáticos dessa trama são inúmeros. Em dez episódios, a série conseguiu abraçar praticamente todos eles, dedicando uma semana para cada inacreditável reviravolta do caso. A humilhação pública de Marcia Clark, o famigerado dia em que OJ provou luvas que não serviram, as fitas vazadas com comentários racistas da principal testemunha de acusação… Os plot twists da realidade eram tantos que fariam qualquer série ficcional morrer de inveja. E para cada uma dessas viradas, um escrutínio midiático cruel. A série foi fundo nessa questão e nos lembrava o tempo todo o quanto o poder da mídia pode interferir intempestivamente em casos como esse, seja na divulgação leviana de informações ou na manipulação sensacionalista delas. Os roteiristas e a direção provaram uma capacidade impressionante de sintetização de dados, sem nunca fazer nada parecer atropelado ou superficial. Para um caso onde até mesmo o esperado veredito já poderia ser facilmente encontrado na internet, eles foram geniais na captação do nosso interesse.

Foi especialmente assombroso ver como a cada episódio, o conflito racial se tornava a mola mestra do caso, fazendo com que as vítimas fossem sendo esquecidas. A coisa toda parecia um absurdo para a promotoria no começo (aquele era um caso ganho). Mas, aos poucos, tudo foi se tornando um pesadelo real. Em pouco tempo, aquele deixou de ser o julgamento de OJ Simpson e passou a ser o julgamento do Departamento de Polícia de Los Angeles, acusado pela defesa de ter plantado provas contra o réu. O júri formado por muitos negros, junto de uma população afrodescendente decidida a acreditar na inocência de seu heroi, acabaram preferindo essa narrativa, em detrimento de todas as evidências… Alguns anos depois do veredito favorável, OJ escreveu um livro chamado “If I Dit It” (E seu eu fiz…), onde contava como TERIA matado a ex-mulher e seu amigo. Foi o deboche derradeiro e a bofetada na cara de um povo que clamou por sua inocência, enquanto ele fortalecia suas mentiras usando do mais puro e dissimulado oportunismo.

Um brilhante último episódio encerrou essa primeira temporada de American Crime Story e o tema do segundo ano já foi decidido: os crimes de negligência do governo americano com as vítimas do Katrina. Os produtores se adiantaram em dizer que não é porque temos a palavra “crime” no título, que todas as histórias se passarão num tribunal. Pensando sobre isso, é fascinante notar que essa declaração está diretamente ligada ao que vimos em People Vs OJ Simpson. Um crime foi cometido e julgado no tribunal, mas os crimes indiretos que vagavam por aquela Los Angeles entoxicada, eram ainda mais terríveis e nauseantes.

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