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jun 06

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UnREAL | Conheça a série que brinca com as verdades e mentiras dos reality shows

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Em 2002 a ABC lançava em sua programação um projeto do produtor Mike Fleiss que acabaria se tornando um dos seus maiores sucessos. Na onda de loucura e poder dos reality shows, o projeto ficaria conhecido como The Bachelor e, após mais de 15 temporadas, ainda é um dos gigantes da programação norte-americana. Com seu formato pseudo-romântico, o programa mostra um grupo de mulheres competindo pela atenção de um “solteirão”. A cada semana, na “cerimônia das rosas”, uma delas é eliminada. Ao final, aquela que resistir será supostamente escolhida como a futura esposa do cobiçado “bom partido”.

Como acontece com todo programa do gênero, The Bachelor se sustenta nas bases do sensacionalismo. Embora haja uma parte da audiência que acredita na possibilidade de sentimentos genuínos nascendo entre os participantes, a maioria quer mesmo é ver os insultos que as moças trocarão entre si. Seguindo a clássica estrutura narrativa de uma ficção, a edição elege suas vilãs e suas mocinhas, fazendo com que uma dramaturgia involuntária parta de eventos que deveriam ser hipoteticamente “reais”. Assim, fica estabelecida aquela velha lenda que envolve os realities: o que há de verdadeiro dentro de um programa como esse?

O canal Lifetime apresentou em 2015 uma resposta para essa pergunta – se considerarmos que a verdadeira ficção pode ter a ousadia de analisar as diretrizes da “falsa”. UnREAL estreou de forma modesta, passou quase despercebida e foi ganhando força conforme a internet espalhava a notícia de que se tratava de um programa que merecia ser visto. Somente agora, prestes a lançar seu segundo ano e com alguns prêmios na prateleira é que a série ganhou status de sucesso, competindo por um lugar merecido entre as melhores estreias não só do último ano, como da última década.

UnREALity Show

O reality escolhido como parâmetro de comparação é uma versão fictícia do citado The Bachelor. No show, o programa se chama Everlasting e nele também temos o “solteirão” que vai escolher uma candidata a esposa. Conhecemos, então, Rachel (Shiri Appleby), uma das produtoras da atração, que após ter sofrido um ataque de nervos durante uma filmagem da temporada, retorna para o trabalho sob os olhares desconfiados dos colegas. Ela é subordinada a Quinn (Constance Zimmer), diretora e braço direito de Chet (Craig Bierko), o criador do formato. As duas têm uma relação muito forte de repulsão e admiração, porque são as mais vorazes na arte de manipular os códigos do produto.

UnREAL começa exatamente na premiere de uma nova temporada de Everlasting e numa dinâmica muito peculiar, somos apresentados ao elenco por trás do reality competitivo e ao elenco do próprio reality competitivo. Apesar de estarmos vendo a atração pela perspectiva dos bastidores, ainda temos o plus das expectativas do programa dentro da série. Temos o solteirão cumprindo seu papel de “príncipe” e temos as participantes e seus motivos plurais para se arriscarem diante do julgamento da TV. Nosso olhar de espectador se amplia para a vigília de dois mundos dentro de um único objetivo: contemplar a “realidade” que faz o entretenimento.

Marti Noxon e Sarah Gertrude Shapiro cobrem muito eficientemente um grande terreno acerca das mitologias de um “show de realidade”. É praticamente impossível não se fascinar ao ver como a série retrata detalhes dessas dinâmicas: o solteirão que só está ali para se rebelar contra a família e para limpar sua imagem na mídia, as participantes que ficam presas por horas na limousine esperando a hora de “entrar” e até a competição paralela que acontece na sala de edição. Cada produtor “cuida” de quatro participantes e aquele que conseguir fazer sua menina chegar na final, ganha um prêmio em dinheiro. Para fazer isso acontecer vale absolutamente tudo. A moral é uma linha tênue e constantemente é a ambição da equipe de produção quem exala a podridão geralmente creditada a quem está na frente das câmeras.

SuRReal

No que diz respeito a narrativa, UnREAL tem o melhor do drama e do jogo de intrigas presente em bons exemplos do gênero. Além de ser uma série com estrutura segura, elenco afiado e viradas incríveis, ela também está retratando um reality cheio de possibilidades e isso protege o programa de qualquer chance de “barriga”. Há uma fascinação inevitável em acompanhar a luta dos produtores para fazer as participantes se exporem o máximo possível, ao mesmo tempo em que existe a nossa torcida secreta para que algumas delas sigam na competição, exatamente como se estivéssemos de fato acompanhando uma temporada real de Everlasting.

Qualquer pessoa que já tenha acompanhado realities de confinamento sabe que há sobre eles uma névoa de descredibilidade que gera uma dezena de teorias de conspiração. O mais interessante em UnREAL é ver a forma como ela não se rende ao julgamento fácil sobre nada. Apesar de ser cruel ao mostrar como a produção do programa pouco se importa com as emoções das participantes ao manipulá-las, a série também reforça a obviedade da escolha individual. Por muitas vezes os caminhos da temporada de Everlasting são transformados por decisões que eles não conseguem controlar, respeitando a mínima pitada de “realidade” dentro da dinâmica do show. UnREAL desnuda o formato, mas não o desacredita completamente.

Dominado pelo elenco feminino, o programa tem um cardápio vasto de personagens impressionantes. A dinâmica entre Rachel e Quinn se bifurca entre o romantismo latente e a pressão das verdades machistas que as cercam. As participantes de Everlasting estão ali vivendo um conflito parecido: elas sabem que não estão ali para amar, mas se complicam na esperança de serem amadas. A força prática do entretenimento proposto pelo reality nunca consegue esmagar esperanças completamente. É algo realmente interessante de se ver… Em dado momento, elas são mulheres usando o programa para outros fins. Em outro, são mulheres só disputando mesmo a atenção de um homem. Enquanto isso, nos bastidores, as duas protagonistas que manipulam as esperanças de completas desconhecidas, são manipuladas pelas próprias esperanças. De uma forma bruta, agressiva, UnREAL extrapola a ideia de que exista para “desmascarar” o gênero dos realities, enquanto no final das contas flerta com uma grande evidência: se a “realidade” não existe na TV, tampouco ela só é feita de mentiras.

Hoje começa a segunda temporada da série nos EUA* e a missão é clara: honrar a popularidade conquistada indiretamente e continuar revelando os detalhes sórdidos escondidos entre uma rosa e outra.

* Já renovada para a terceira temporada, UnREAL exibiu sua primeira temporada no Brasil pelo canal por assinatura Lifetime, mas ainda não há previsão para a estreia do segundo ano por aqui.

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