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mar 14

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Velho Chico | "Stanley Kubrick da TV brasileira", diretor Luiz Fernando Carvalho fala sobre a novela

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Com pinta de filme de bangue-bangue, na melhor tradição de cults como Era Uma Vez no Oeste, a nova novela das 21h da Rede Globo, Velho Chico, estreia nesta segunda-feira, resgatando para o horário nobre da TV aberta a tradição dos folhetins rurais, numa história sobre coronelismo ambientada no leito do São Francisco, rio da “integração nacional”. Com a grife de Benedito Ruy Barbosa, autor de sucessos como O Rei do Gado (1996) e Renascer (1993), num texto desenvolvido por sua filha Edmara Barbosa e seu neto Bruno Luperi, a trama acompanha disputas de terras a partir do conflito entre as famílias do Capitão Rosa (Rodrigo Lombardi) e de Afrânio, personagem que marca o regresso do galã de projeção global Rodrigo Santoro às telenovelas após um hiato de 13 anos. As rixas entre eles vão se desdobrar dos anos 1960 até os nossos dias, sob a condução de um diretor muitas vezes apelidado de “o Stanley Kubrick da TV brasileira” por seu rigor plástico e por sua busca por expandir as fronteiras de narrativas épicas: Luiz Fernando Carvalho. Responsável por produções consagradas como Hoje É Dia de Maria (2005), Os Maias (2001) e Meu Pedacinho de Chão (2014), Carvalho conversou com o Omelete sobre suas escolhas estéticas, explicando de que forma este mergulho nas águas da geopolítica espelha contradições imemoriais do país.

Que Brasis, de ontem e de hoje, estão contemplados em “Velho Chico”?
LUIZ FERNANDO CARVALHO – Na brasilidade e seus desdobramentos: vai desde uma paisagem que não está ali apenas como cartão postal, mas sim como território dramático – onde o interior dos personagens se reflete naquela geografia – até as coordenadas culturais, o uso e os costumes do povo, passando, claro, pela tentativa de incluir um conjunto de excluídos de toda ordem, com dialetos, rostos, cores, “emocionalidade”, contradições, tragédia humana e tragédia social. Tudo isso é vida e, por tanto, linguagem. Tudo se espelha e se completa traduzindo um mundo de invenção e memória que busca na construção da fabulação uma reflexão sobre o Real. Então, no fundo, estou falando do caráter ético de um olhar. Continuo interessado nos vetores míticos do país, numa espécie de escavação, em uma perspectiva histórica e ao mesmo tempo lúdica. Sei que na televisão isto é muito difícil e delicado, mas sinceramente, esta é a tentativa: tocar nas contradições arquetípicas. Lembro-me daquela reflexão do diretor Luchino Visconti [cineasta italiano na ativa entre as décadas de 1940 e 70, consagrado por filmes como O Leopardo] que me diz muito: “Ao nos depararmos com a beleza nos deparamos com a Morte”. Sinto esta dubiedade e esta forças contraditórias quanto mais pesquiso a brasilidade. Não há refúgio. Ela é indizível, não tem apenas uma cara ou um nome. Somos multifacetados. Onde quer que se esteja, qualquer região, nós perceberemos sempre o espírito barroco dos contrários, das volutas nos elevando e nos soterrando. 

O quanto o país retratado na nova novela dialoga com a representação que você buscou em seus trabalhos anteriores?
CARVALHO – Há talvez uma linha perceptível que poderia transpassar Lavoura ArcaicaOs Maias, Hoje é Dia de MariaCapituA Pedra do Reino e Subúrbia, mesmo levando-se em conta a distância temática e as diferentes convenções que exercitei em cada um destas realizações. Inevitavelmente, eles exercitam procedimentos narrativos ligados a uma pesquisa sobre o melodrama, numa espécie de viagem de reconhecimento ou alumbramento do gênero: ora patético [CapituPedra do Reino], ora trágico [LavouraOs Maias], ora as duas coisas misturadas [Hoje é Dia de Maria]. A ligação com Velho Chico se dá a partir da continuidade desta aproximação com as chaves do melodrama, aqui agora alçado à condição contraditória do próprio gênero quando jogado sobre as diversas circunstâncias estéticas e morais do Brasil de hoje. Enquanto a primeira fase talvez dialogue mais com a narrativa literária de Os Maias, onde a câmera escrevia os espaços e os personagens buscando um diálogo com a prosa elegante do escritor português Eça de Queirós, na segunda fase da novela, quando chegamos nos dias de hoje, não só a câmera, mas a dimensão épica desta contradição nacional que estamos falando, arrastaria tudo para uma tragicomédia, sem perdermos os valores do melodrama e seus heróis. Mas, ali, uma nova camada surgiria, algo como um sopro antropofágico. Esta talvez seja a maior e mais sutil tentativa de algo novo para mim também: este exercício de trabalhar entre o melodrama e o tragicômico do Brasil atual, caminhando entre as tradições e o manifesto.  

Já se usou muitas vezes a expressão “o Shakespeare da Teledramaturgia” como um definidor da obra de Benedito Ruy Barbosa. O quanto o universo dele se expande e se renova em O Velho Chico e o quanto você entra como um coautor ou roteirista final no texto que vai ao ar agora? 
CARVALHO – Benedito é um ficcionista clássico. É alguém que trabalha com a visão romântica e, certamente, alguém que trabalha com as coordenadas do gênero humano. Leva a fundo certos elementos fundadores do drama, como amor, morte, pai, mãe e o tempo que passa, sem faltar de uma certa dose de mistério, que, na literatura latinoamericana, conhece-se bem por realismo maravilhoso ou fantástico. Estas chaves você encontra mesmo antes de William Shakespeare, em autores da Idade Média, como Geoffrey Chaucer. De lá pra cá, a dramaturgia buscou renovar o olhar sobre estas questões essenciais e o fez com grande intensidade. Desde Dostoiévski – a quem considero o maior “cineasta” de todos os tempos, mesmo sendo um escritor – até Kafka, passando por Becket, e muitos outros. Mas o que importa refletir é o quanto um clássico se renova ou não. Minha experiência com textos clássicos, sejam na tentativa de realizar uma novela do Benedito ou um série a partir do Machado de Assis, diz que o texto é, sim, fundamental. É um farol, mas que metade desta importância deve ser posta em observação. Ou seja, minha direção será sempre um ato de resposta ao texto. Sou afetado pelas diversas sínteses de cada autor e respondo a elas. Se isso você chamaria de coautor, é algo que não penso. Quando trabalho sobre um texto ou adaptação que não é minha, como agora em Velho Chico, trago minhas contribuições desde o debate dos capítulos através de propostas de encaminhamentos estruturais, passando pelos ensaios com os atores até o momento máximo da realização em um set. Só consigo realizar um projeto se o trago minimamente para dentro de mim.  

Depois de toda a fase de experimentação formal que você viveu nas microsséries e mesmo no horário das seis com Meu Pedacinho de Chão, como é voltar agora ao horário nobre das novelas, às 21h, onde você se consagrou com Renascer e Rei do Gado nos anos 1990? O que este horário impõe como desafio? 
CARVALHO – Não separo: “isto é novela, isto é minissérie ou seriado”. Tudo é a mesma travessia. O desafio maior desta novela vem sendo botar de pé todo este pensamento, este conceito, transformá-lo em produção diária de uma hora de duração e manter este posicionamento. E isso só será possível graças à equipe que venho formando e juntando no galpão. Eles sim, posso afirmar, são verdadeiros coautores. Sem eles não seria possível colocar no ar Velho Chico em apenas dois meses de pré-produção. Foi um milagre.

De que maneira a estética que veremos em Velho Chico esgarça as fronteiras do melodrama e do faroeste, referências onipresentes nas tuas novelas?
CARVALHO – De uma maneira antropofágica, como falei acima.  Reconhecendo que nosso país traz todo este conjunto de gêneros de forma simultânea, barroca e contraditória. Isso anima e orienta meu olhar, mas tudo não passa de tentativas. 

A matéria Velho Chico | "Stanley Kubrick da TV brasileira", diretor Luiz Fernando Carvalho fala sobre a novela foi originalmente publicado em http://omelete.uol.com.br/series-tv/entrevista/velho-chico-stanley-kubrick-da-tv-brasileira-diretor-luiz-fernando-carvalho-fala-sobre-a-novela/

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